17 de jan. de 2011

Pílula do esquecimento




A moralidade da sociedade vai alterar drasticamente nas próximas décadas.

Cientistas estão no caminho de inventar a pílula do esquecimento - soldados virarão máquinas insensíveis e vítimas de estupro perderão os traumas da noite pro dia.

Será? Avanços na ciência médica vem demandando da sociedade a abordagem de questões morais extremamente sensíveis. A clonagem, por exemplo, levanta perguntas perturbadoras para muitos: será lícito "cultivar" corpos e orgãos para reposição em caso de acidentes e doenças? Considerar-mos-emos clones humanos acordados como cidadãos? O que eles dirão a respeito?

Outras áreas de pesquisa, como a neurociência e a bioquímica, vem oferecendo caminhos promissores para no futuro tratarmos as memórias traumáticas e os sentimentos que poderemos enfrentar em situações desafiadoras. Dos exemplos citados no começo, podemos ter razoável expectativa de tratamentos que literalmente mudem a fiação do cérebro de um indivíduo, tornando-o efetivamente outra pessoa.

Um exemplo é a mudança de memórias. Partindo do princípio que elas são substâncias químicas armazenadas entre sinapses arranjadas de formas específicas no cérebro, se alterarmos essas configurações, abrimos precedentes para a dissolução de informações e até, admitindo técnicas extremamente refinadas, o implante delas. Outro exemplo é o que alguns estão começando a apelidar de "pílulas do dia seguinte". Experiências traumáticas estão intimamente relacionadas ao funcionamento da amídala, glândula que participa da regulagem do medo e vários processos correlatos que acontecem logo após as experiências de um indivíduo. Cientistas estão investigando substâncias que podem ser usadas para afetar essa regulagem. Com isso, espera-se diminuir o impacto de determinadas experiências que, de outro modo, causariam disfunções psíquicas profundas. O passo seguinte na lógica são comprimidos para diminuir a chamada Síndrome de Estresse Pós-Traumático em soldados que invariavelmente presenciam cenas de horror, como a mortandade de civis e as doses altas e constantes de sentimentos agressivos direcionadas ao inimigo; pode-se diminuir o impacto emocional de experiências como acidentes de carro, estupro e sequestro. Os cientistas, até agora, possuem as melhores das intenções. Isso está claro, pois o que motivou todas essas pesquisas em primeiro lugar foi justamente propor tratamentos para essas situações clínicas, que, de outro modo, certamente deixariam a pessoa disfuncional por um extenso período ou, com uma certa frequência, para sempre.

Nada mais louvável, diremos nós!

Isso não deve(ria) ser uma surpresa. Anti-depressivos e ansiolíticos podem ter como efeito o embotamento do indivíduo, dotando-lhe de características semelhantes à dos psicopatas e narcisistas. E este é um efeito premeditado e terapêutico! Não estamos acostumados com isso há somente décadas: desde tempos imemoriais usamos psicotrópicos, seja para fins terapêuticos, seja para fins ritualísticos. De qualquer modo, o processo de alterar a fiação do cérebro ocorre naturalmente em nossas vidas. Experiências nos transformam e digerimos elas. Uma sequência de infortúnios no amor nos leva à reavaliação (ou não). Brigas com os amigos e parentes nos mostram o quanto os outros estão (ou nós estamos) errados. Acidentes nos chamam a atenção para descaso do poder público e da sociedade (ou maus hábitos da nossa parte). E o que foi que passamos em todos os anos de escola? Aprendizado, oras...

Poeticamente falando, temos uma vasta bagagem espiritual para adquirir no caminho da vida. Que mais desejar? Não é esse o motivo que nos colocou aqui? Sermos algo? Mais fascinante do que essa dádiva só pode ser a expectativa de como usufruí-la. O que podemos tirar das nossas experiências? Considerando que temos essa escolha, como eu avalio o que passei? Não é isso que diz o ditado: "eu não controlo o passado, mas o futuro está nas minhas mãos"? Eu posso, afinal, escolher quem eu sou.

E agora, se não pela auto-descoberta, ao menos pela ciência.

Estamos descortinando uma época de eugenia por excelência. Talvez não esteja claro no primeiro momento: temos na ponta das ferramentas a técnica de ditar o que será um ser humano. Em breve, eu sinto que nossos netos escolherão em clínicas de natalidade a cor dos olhos dos filhos, pagarão a la carte pela modificação de genes que predispõem a doenças e a excelências, que os bisnetos tomarão o comprimido da bissexualidade no final de semana pra "aproveitar a festa ao máximo" e os tataranetos poderão se acostumar a uma vida supra-carnal ininterrupta no cyberespaço.

Isso não mascara o fato de que a questão sempre existiu. Escolhemos definir o que é ser humano desde quando - bem -, nos identificamos como tal desde o princípio. O que talvez nos deslumbre seja a intensidade que isso pode tomar. Uma coisa eu tenho certa: a moralidade está cada vez mais dinâmica.

Pra quem quiser saber mais:
pílulas do dia seguinte
terapêuticas para a memória

16 de ago. de 2010

A religião é um mal?

Eu assisti um documentário interessante do Richard Dawkins que procura explicar porque a religião é um câncer que assola a sociedade e porque a fé torna as pessoas ignorantes. Chama-se "A Raiz de Todo o Mal?".

Uma questão que sempre me fascinou é sobre a existência ou não de Deus. Eu não sei me definir a respeito de uma maneira precisa e inequívoca, mas tenho uma boa noção da direção para a qual eu pendo. Sinto uma indubitável inquietação a esse respeito e estou sempre imerso nessa busca, envolto na construção da minha realização espiritual.

E, assistindo a esse documentário, que pode ser tomado como uma condensação de argumentos do livro "Deus, Um Delírio", eu não pude evitar um processo conturbado de, a um só tempo, concordar em alguns pontos, ter ressalvas em vários outros e tambem de sentir uma angústia alheia pelo equívoco (a meu ver) no resto.

A religião ensina o ódio. Certamente. Richard Dawkins percorre os continentes ocidentais e mostra casos, como o de alguns grupos pentecostais americanos, que se valem de um pensamento binário de certo-ou-errado e veiculam por meio de um discurso maniqueísta a descaracterização e desumanização de tudo que não pertence ao restrito mundo sagrado do grupo, gerando assim uma forma atrativa de defesa como resposta aos anseios de minorias ou desiludidos marginalizados, que encontram na auto-afirmação oposicionista, vitimista e agressiva a forma de sobrevivência social e cultural. Isto tambem ocorre em grupos maiores de identidade, como um país. O fenômeno do anti-islâmismo que assola os EUA é exemplo, mas a arquitetura do processo é a mesma: uma auto-afirmação como resposta à conjuntura internacional da ameaça (que, ironicamente, neste caso foi cultivada em boa parte pelo ocidente). Por isso eu concordo que a religião dissemina ódio. Vírgula. Porque aí entramos num ponto muito interessante: ele ignorou deliberadamente todos os outros grupos religiosos que não fazem parte desse processo. Quantas seitas cristãs, por exemplo, não passam ao largo desse cenário político e social de antagonismo e guerra? Muitas, ora.

Eu, na minha experiência, conheço várias que agem diferente dessa postura belicosa e autocêntrica. Um exemplo fora do meu mundo social, que pode ser facilmente reconhecido, é o protesto promovido pelos budistas tibetanos. Esta teve o sucesso de se expressar, em boa parte, de forma não agressiva. Eu tambem não poderia deixar de citar o caso pop de Gandhi: existiam os que queriam se rebelar pela revolução armada e os que queriam de modo pacífico e intelectual. Evidencia-se a complexa dinâmica de uma religião, pois que fenômeno social: existem diversos pontos de vista e modos de direção sob a mesma vertente. E seria reducionismo improdutivo descaracterizar a riqueza de pensamento que compõe uma religião. Seria mostrar o islamismo como aquela seita de homens barbudos e selvagens com fuzis queimando a bandeira dos EUA, e ignorar que é uma religião tão ramificada quanto o cristianismo, com suas inumeráveis manifestações e cosmovisões. É óbvio que nem todo islâmico é terrorista e que nem todo cristão quer queimar gays na fogueira. Seria como dizer que todo brasileiro adora futebol. Selecionar de forma tendenciosa alguns grupos que partilham uma caracteristica e generalizar essa característica para o conjunto é distorcer a realidade do contexto. Para provar que a religião é algo que necessariamente dissemina o ódio é preciso provar que isso vem do seu bojo. A mim me parece que o processo de inimização que contaminou vários movimentos mundo afora é de conjuntura diversa. Em resumo: o ódio é um processo em si, que pode como não pode estar relacionado à religião.

A religião alimenta o sectarismo. Uso aqui o mesmo argumento do item anterior. Gostaria apenas de acrescentar que fiquei impressionado com a forma como o processo de doutrinação pode se tornar insidioso em algumas igrejas. De fato, uma crítica que gostei muito foi quando ele compara a fé a um vírus, e que uma das formas mais fortes de passar esse vírus é dos pais para os filhos. Quando etiquetamos as crianças pelas religiões de nossas famílias e forçamo-las ao convívio exclusivo no meio da comunidade afim (como ocorre no exemplo, as crianças judias ou cristãs indo às escolas judaicas e cristãs), estamos automaticamente tornando-as parte daquele universo restrito. A separação, aparentemente civilizada, de "eu fico no meu canto e você fica no seu", gera tambem a segregação. Assim, do indivíduo é retirada uma riqueza, que é proporcionada pelo crescimento em meio à diversidade. Nela floresce a tolerância, qualidade fundamental em uma sociedade democrática que almeja a fraternidade e as relações de respeito.

A fé torna as pessoas irracionais. Neste ponto do programa, Dawkins aponta casos relevantes de lavagem cerebral e violência emocional experienciada pelos fiéis. Em um centro, adultos e jovens desde os doze anos são expostos a um vídeo que procura ensinar porque você deve evitar determinados comportamentos, que são pecaminosos. Para isso, a técnica utilizada no vídeo é uma espécie de reforço negativo: temor da punição espiritual. São mostradas encenações de pessoas sofrendo as agruras do inferno. Uma adolescente grita desesperadamente por clemência pelos atos perpetrados, mas a audiência sabe que ela passará a eternidade neste estado de sofrimento. A salvação está fora de questão. Uma mãe e a equipe médica encontram-se num estado de delírio e euforia psicótica por terem praticado o aborto. Vozes de agonia e terror pungente ecoam a todo tempo e labaredas de tortura permeiam o cenário. No final, a mensagem é clara: se você praticar algum destes atos, você sofrerá inominavelmente para todo o sempre. Se esta maneira de veicular a mensagem é do tipo que provoca graves preocupações em adultos frente a qualquer situação de provação, o que dizer da mente impressionável de crianças?

Uma especialista ouvida por Dawkins é psicóloga e ela própria passou por essa exposição desde pequena. Quando decidiu se libertar, passou a ajudar na recuperação de outros que saíram do mesmo caminho. O cientista pergunta a ela como foi sentir todas aquelas coisas e ela, com a voz embargada, admite numa honestidade exemplar, que se, mesmo após tantos anos, naquele momento ela ainda achava difícil revisitar as memórias para explicar como foram, tem-se aí a evidência de como as marcas são dolorosas e profundas. O que se tem, no tipo de igreja que proporciona esta formação religiosa, são pessoas que creem firmemente em algo por temor de pensar o contrário. Elas crescem em um meio em que se é encorajado a pensar daquela forma e, ao mesmo tempo, não se pode buscar interação com o mundo externo, porque tudo nele é pecaminoso. Portanto, o indivíduo nunca terá em pessoas de outros meios elementos de descoberta, muito menos contraposição, falhando, assim, numa forma crítica de análise e terminando completamente refém daquele sistema. Ele não conhecerá outra coisa no mundo. Por isso, não admira que determinadas pessoas tenham uma visão tão arraigada e particular das coisas. É, afinal, assim que se constroi um fundamentalista. Creio que estes são, de fato, os indivíduos irracionais aos quais Richard Dawkins gostaria de se referir. O problema é que, mais uma vez, ele cai na mesma argumentação dos pontos anteriores.

Só porque grupos religiosos constroem esse sistema de lobotomização, não quer dizer que todos o fazem. Pessoas como as desses grupos não sabem o que é um debate teológico. Para elas não existe debate. Existe o que está escrito e ponto final. Mas, distante da percepção do cientista, existe uma profusão de debates racionais acerca das doutrinas, em seus próprios meios e longe deles, promovida por religiosos e não-praticantes. Disto chegamos ao próximo ponto.

A religião é ilógica. Muito pelo contrário. Estivesse o biólogo disposto a conhecer os grandes pensadores que deixaram suas marcas desde, mesmo, o cristianismo primitivo, ele teria se maravilhado com a elaboração que é capaz de produzir o racionalismo cristão. Estiveram, por exemplo, em debate, assuntos da mais alta ordem no seio da intelectualidade há dois mil anos. Discutiram Paulo de Tarso e Simão Pedro sobre quais rumos tomar o movimento nascente. O primeiro sentia uma necessidade de distanciar-se da origem judaica, enquanto o segundo sentia o imperativo de apoiar-se no judaísmo e levá-lo a novos precedentes, projetando-o rumo aos novos milênios. Estes dois proeminentes da Igreja germinada, junto a seus partidários, promoveram longos (e por veses acalorados) debates, que não raro percorriam as definições teológicas e doutrinárias, tentando achar uma nova maneira de as dispor. Este foi o primeiro de uma série de debates cristãos, que mais tarde abarcaram uma diversidade infinda de outros assuntos, ecumênicos inclusive, relevantes aos novos momentos sociais.

Percebe-se, disto, como existe o esforço em explicar racionalmente a cosmologia espiritual. É certo que mescla-se a isso o processo político. Não devemos tomar do cunho político e sociológico, entretanto, um caráter contaminador, nem entender que isto torna o debate um pragmátismo terreno em detrimento de uma genuína fundamentação racional. Novamente, muito pelo contrário. É meu entender que estes elementos comunicam-se de forma mútua, sem caber aqui descobrir onde é o ponto de partida ou de chegada. É uma questão como a do ovo e da galinha - não cabe tanto querer responder qual veio primeiro, quanto entender a relação de como um influencia o outro. Portanto, no anseio de responder a questões existenciais, mentes de academicismo por excelência se ocuparam de desbravamento insólito no vasto mundo da racionalidade. Bebeu-se da água dos clássicos para provar, pela lógica, esta ou aquela visão. Dos séculos seguintes podemos citar os famosos Ário e Atanásio, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. Todos se basearam profundamente na filosofia grega e romana. Dizer, então, que a religião é um vírus da irracionalidade denota superficialidade por parte do biólogo.

É ao, afirmar ilógica a religião, que Dawkins se vale de uma cilada costumeira - ao entrar no debate com o pastor ou líder, ele busca uma reação tal para mostrar que ele, o cientista, o ateu, o racional, acredita em evidências e fatos e que o outro, o religioso, o fiel, o irracional, o intransigente e o acrítico, acredita em algo simplesmente porque disseram-no assim. Quer tentar demonstrar Dawkins, além disso, que acreditar em fatos e evidências é ser racional. Mas ele esquece que o empirismo, que se baseia em fatos e evidências, não é a única forma de racionalismo. Existe tambem o outro lado da moeda, por assim dizer, que é o sistema racional-dedutivo. Além de ele aparentemente não compreender as delimitações do empirismo, ele ignora sua contraparte. É por meio do sistema dedutivo que conseguimos - numa forma didática de explicar - descobrir várias verdades. Foi por meio dela que o próprio Karl Popper sedimentou as bases da ciência contemporâneo. Os filósofos cristãos anteriormente citados tambem se valeram do sistema dedutivo. Como acusá-los irracionais, quando se empenharam com as mesmas ferramentas lógicas que deram molde à ciência de fatos e evidências?

Daí surgem lacunas na argumentação de Dawkins, que são falhar em reconhecer formas diversas de racionalismo além da ciência, falhar em demonstrar como a ciência pode responder questões existenciais dos seres humanos e explicar porque as pessoas devem ser obrigadas a descrer em Deus para encarar melhor a vida. Ele admite consigo, a certa altura, que Deus é algo para além da ciência responder (veja, isto não é o mesmo que dizer que a ciência desprova Deus; é dizer que, com base na ciência, não podemos criticar a crença de outrem em Deus).

Ciência e fé podem ensaiar caminhada conjunta. A religião não é somente dogma, tampouco se limita a simples fenômeno socio-cultural. Certo é observar que a fé se manifesta muitas vezes como irracionalidade, belicosidade e intransigência. Equivocado é afirmar que todas as religiões assim o são em virtude da interpretação particular e livre de alguns indivíduos e que são intrinsecamente violentas e destilam peçonha na sociedade.

Na minha opinião? Dawkins é agnóstico, mas ele ainda não sabe.

8 de jul. de 2010

"Assassino! Assassino!!!"

Queima de Judas
"É uma tradição vigente em diversas comunidades católicas e ortodoxas que foi introduzida na América Latina pelos espanhóis e portugueses. É também realizada em diversos outros países, sempre no Sábado de Aleluia, simbolizando a morte de Judas Iscariotes. Antropólogos generalizam estes tipos de atividade como 'rituais de sacrifício'." (adaptado da wikipedia)

Hoje de manhã eu cumprimentei uma pessoa e trocamos bom-dia. Aí ela logo puxou assunto: "Mas que barbaridade que aquele goleiro fez, né?". Aí eu quis concordar, mas resolvi externar uma opinião: "é... ele ainda não foi julgado, né?". No fundo eu concordo, mas achei melhor evitar a conversa. Trata-se do goleiro Bruno do flamengo e o escândalo do assassinato de sua ex-amante, que pipocou recentemente na imprensa.

Mais tarde, depois do almoço, assisti na reportagem o goleiro Bruno sendo escoltado da polinter - onde havia passado a noite encarcerado - para o IML para fazer exames durante a investigação policial. Logo no começo do vídeo mostra um policial, visivelmente tenso, com um fuzil preparado, e o resto dos agentes fazendo um cordão pra proteger o principal suspeito da multidão. Uma cacofonia de acusações e sentenças dardejavam o goleiro, que, aparentemente sereno, sentou no banco de trás da viatura, se acomodou e foi levado do local.

A primeira coisa que lembrei foi de um pai que, inconformado com a morte da filha na queda do edifício Palace 2, no Rio de Janeiro, havia agredido verbalmente o construtor e ex-deputado Sérgio Naya na frente das câmeras da tevê. Foi uma cena forte e comovente. A segunda coisa que lembrei foi do caso Nardoni, que gerou tanto clamor na imprensa e sociedade brasileira.

E porque eu citei a queima de Judas?

Indo mais fundo
Bem, eu entendo que esse tipo de ritual, não raras vezes, funciona como uma forma de projeção. Em psicologia, projeção é um mecanismo de defesa que usamos quando não queremos ou não temos capacidade ou não temos condição de lidar com uma questão interna. Então, se ela começa a nos incomodar, nós a negamos e a colocamos como um problema de fora, não nosso. Quem tem o problema são os outros, e não nós mesmos. Quem é o autor do problema são os outros. Quem começou a coisa foram os outros. Quem tem a culpa são os outros.

Acho que a ligação ficou mais clara agora.

O fato de existirem situações horríveis e flagelos em nossa sociedade é uma constatação preocupante. Mas o que me preocupa mais ainda é a forma como lidamos com isso. Quando surge um assassino, a regra é agredir verbalmente, se indignar, arrancar os cabelos, demonstrar repúdio visceral. Todos vimos isso nas multidões repetidas vezes ao assistir à telinha de tevê - a turba se movimenta e a figura central se torna o alvo de todos os sentimentos de reprovação.

O que isso tem de ruim é que nós passamos a ver aquele indivíduo somente como aquilo e nada mais. Nós nos esquecemos que ele é um indivíduo completo, que pensa, age, sofre, alegra-se, tem vitórias e derrotas; enfim, passou uma saga completa. Nem caber num livro ele caberia. Metaforicamente falando, é como se amarrassem o autor ao poste em praça pública e colocassem a máscara de monstro nele. Ele foi extirpado de toda a sua humanidade. Seu rosto, com o qual podíamos nos relacionar, não existe mais. Em seu lugar está uma feição distorcida, que representa o contrário do que elegemos como bom e ético. Este é o típico ato de desumanização - remover de um indivíduo ou de um grupo tudo com o qual podemos nos corresponder, a fim de conseguir um inimigo externo. E isto pode até mesmo se tornar um processo consciente e arquitetado. Grupos de poder usam-no o tempo todo como tática de guerra política.

E assim voltamos ao ponto de partida. Projeção é um mecanismo de defesa que pode se desdobrar na criação de demônios externos, quando, na verdade... os demônios vivem em nós! É um processo de negação - porque é mais fácil e cômodo nos eximirmos da culpa; ou porque temos uma motivação tão torpe que queremos legitimá-la; ou porque estamos tão envolvidos que perdemos o controle das nossas ações; ou simplesmente porque não temos estrutura pra encarar a verdade. Os motivos são os mais variados. O objetivo aqui não é tornar a sociedade o verdadeiro vilão. De um certo modo ela é, mas permanecer nessa conclusão é simples demais. O que devemos perceber é que isso também não foge do limitado pensamento binário de bem-mal, herói-vilão, santo-monstro e jesus-satanás.

O desafio a vencer é interior
Refletir, fugir do maniqueísmo, é entender que parte temos nisso. É lembrar que acabou de sair um relatório sobre a qualidade da educação no Brasil explicando que o ensino médio está precário e perceber que, nos anos em que elegemos os governantes e nos subsequentes, não cobramos nenhum diálogo pra elaborar um plano pra educação no período eleitoral, nem fiscalizamos o Estado pra cumprir as metas (e muito menos participamos das escolas).

É reclamar do atendimento no hospital, da falta de remédio e de equipes de atendimento e de como o governo não atende as doenças dos indivíduos, mas esquecer de tirar a água acumulada dos recipientes pra não criar o mosquito da dengue e ter preguiça de ir vacinar, mesmo tendo tudo pronto lá no posto de saúde. Onde o senso comunitário, de perceber que essas coisas afetam não só a nós, como aos outros?

É ficar indignado quando um assaltante nos aborda e leva os pertences - isso quando não nos machuca -, mas ficar alheio quando isso acontece com o outro e achar trabalhoso formar um grupo de denúncia ou protesto. É lembrar que a violência nas grandes cidades nos assola e querer sempre mais verba pra segurança e advogar a pena de morte como punição justa e preventiva, mas esquecer que a "fábrica de bandidos" que é a cadeia não é uma lata de lixo onde jogamos fora os sentenciados pra nunca mais lembrar, sem reintegração social, projeto de profissionalização e terapia; é, além disso, não perceber que o ambiente insalubre de vários bairros pobres acaba tornando na criança atrativa a carreira de "bandido pop star", pois ela não tem escola, apanha dos maiores e acaba achando que ser adulto é ser fisicamente potente ou um esperto enganador; para a comunidade, ela não tem nenhuma chance de crescer profissionalmente e curtir alguma ambição sadia, mesmo, não é? O ensino é precário e "entrar na faculdade" é palavrão de privilegiado, uma expressão tão distante quanto "virar astronauta" ou ridícula como "quero ser presidente".

Portanto, ao vermos os próximos "goleiros Bruno" e "casais Nardoni" da vida, é inteligente pensarmos em que tipo de problemas nossa sociedade possui, como casos assim foram germinados, o que se passou na cabeça dos envolvidos e como influenciamos pra que essas infelicidades se perpetuem.


29 de mai. de 2010

Parabéns, coronéis, vocês venceram outra vez



Enquanto o que aqui vos fala aguarda do governo e da justiça o fornecimento do remédio para a doença rara e progressiva, os ilustres parlamentares se lambuzam com o tacho de doce. Raspam o fundo e até lambem a colher.

Porque será? Ói qui procê vê...

Aqui no DF, assim como o pessoal que depende da farmácia de alto custo para as medicações imprescindíveis vem sofrendo com a escassez na Saúde, eu também estou no mesmo barco. Só que no meu caso nem é por falta de verba. É pura apendicite política, mesmo. Essa crise no GDF (Governo do Distrito Federal, para quem não está acostumado) reverbera e gera novas consequências até hoje.

Não vi uma alcunha mais apropriada. A operação Caixa de Pandora botou expostas as entranhas desconhecidas do GDF.

Exemplo 1: o cofrinho do BRB
Descobriram que o governo Arruda investiu R$ 238 milhões em uma conta no fundo de investimento do Banco de Brasília, que é um banco público aqui do DF. Sabe de onde veio esse dinheiro? Foi tirado da Secretaria de Saúde. Não caiu a ficha? Então eu explico em pormenores: essa verba é pra ser investida em remédios, profissionais, equipamentos, treinamento e atendimentos. Só que ao invés disso estava sentadinho, crescendo a zero vírgula não-sei-quanto por mês no banco. É o seguinte: governo não é entidade financeira! Governo é germinador de investimentos e deve aplicá-los diretamente, pra provocar o retorno em crescimento real, e não financeiro!

Exemplo 2: farmácia de alto custo
Devido a saída do governador José Roberto Arruda (também conhecido aqui no planalto central como Gargamel) do governo, a máquina estatal sofreu uma parada. Ou melhor, uma convulsão. Obras e serviços começaram a falhar, em parte porque a pressão da opinião pública e da mídia para que se fizesse uma assepsia forçou a substituição do comando de todas as pastas do GDF. E esses recem-nomeados queriam mostrar serviço: cortar gastos suspeitos, ou no mínimo supérfluos reorganizar o quadro de servidores, além de passar um pente-fino nos contratos e licitações que pareciam duvidosos. E esses novos ocupantes chegavam frescos ao setor, o que provoca uma natural fase de adaptação. Até se sentirem a vontade, não exercem a função com desenvoltura. Então muitas licitações das quais dependia a farmácia de alto custo para adquirir as medicações e assim suprir seus estoques deixaram de ser renovadas.

Daí o pandemônio que vem ocorrendo desde janeiro deste ano. Uma multidão de pacientes injustiçados passou enfim a vocalizar as queixas com maior eficácia. Foi noticiado Brasil afora: chegou a faltar esparadrapo nos hospitais. Além disso, a má gestão herdada dos períodos anteriores era tamanha que ocorriam furtos generalizados de medicação e equipamentos por parte dos próprios funcionários.

Ai do governo Rogério Rosso, que cumpre o período de transição até as próximas eleições. Terá que demonstrar comprometimento. E com essa herança, não será facil; sabe o que ele vai ter que descarcar?

Exemplo 3: a farra dos comissionados no GDF
Sabe quando eu falei do tacho de doce lá em cima? Pois é, olha o tamanho dele: R$ 4, 36 milhões por mês. Uns enfiavam o dedinho. Outros vinham com a colherada. E quem é acusado de ter carregado é o Gargamel. Uma maneira de formar a base aliada é usar os cargos comissionados como moeda de troca.

Exemplo 4: o Instituto Candango de Solidariedade (Alheia)
Segundo o inquérito, daqui veio parte dos maços de dinheiro que vemos nos famosos vídeos da operação Caixa de Pandora: para a meia de Prudente, a bolsa de Eurides Brito e a oração dos corruptos. Por meio de contratos irregulares, a cúpula sugou dinheiro público. A fórmula é simples: você, que é um político comandando a máquina, chama um empresário e fala "eu vou te pagar muito além do normal pelos serviços necessários e tambem contratar sua empresa pra serviços desnecessários e em troca você me devolve noventa por cento do bolo". E esse bolo teria sido usado pra comprar os aliados políticos e estes, por sua vez, usavam o dinheiro pra financiar as próximas eleições, assegurando o futuro no poder e fechando, assim, um ciclo perpétuo.


Resumo da Ópera
Eu não tenho meu remédio porque o GDF virou uma zona e nenhum burocrata que assinar a deferimento, sendo que a verba já foi separada bonitinho pra isso.



E aqui vai a minha mensagem. No tom dos Paralamas.











**************************
Fontes:
doença de Pompe: link  1; link 2
o cofrinho do BRB: link (fonte original: CartaCapital)
farmácia de alto custo: link (fonte original: Correio Braziliense)
a farra dos comissionados no GDF: link
o Instituto Candango de Solidariedade (Alheia): link 1 (fonte original: Correio Braziliense); link 2

9 de mai. de 2010

Alice não é para crianças



Mas não é mesmo.

Você deve estar imaginando onde eu vou chegar no raciocínio. Mas provavelmente você teve a impressão errada. Não, eu não estou dizendo que o livro ou filme da Alice no País das Maravilhas é lascivo, erótico, nem nada do tipo.

"Então o que diabos você quer dizer?".

Bom, tudo começou quando eu tinha seis anos. Assisti o desenho feito pela Disney. Você conhece? Putzgrila, é muito bizarro. É surreal. Eu lembro de ver aquilo e ficar viajando na marionésia com cara de vaca pastando no infinito - e eu não quero dizer do tipo "professor, essa matéria não entra na minha cabeça!", não, quero dizer "eu coleciono alfinetes  porque eles foram deixados pelos deuses alienígenas que pisaram na terra há quatorze mil anos". Tipo, é quebrar o paradigma num outro level... entende o tamanho do nó que deu na minha cabeça?

Com a que temos nessa idade, estamos no início do processo. A criança está ainda desenvolvendo o domínio das coisas mais abstratas, relativas e subjetivas da vida. Eu estava pegando o meu primeiro barquinho pra navegar nesse mar misterioso e seus segredos; por descobrir se a Terra era chata, quadrada, redonda ou em rosquinha; que continentes existiam além do horizonte e que tipo de gente "esquisita" e diferente eles guardavam; se as águas tinham mesmo aqueles monstros das lendas ou se tudo era imaginação;  se a gravidade era pra cima ou pra baixo; enfim, eu estava pegando minhas primeiras pecinhas e tentando montar o meu universo cosmológico. Eu estava a sedimentar os primeiros parâmetros pra começar a compreender o mundo em maior profundidade.

E assistir aquele desenho foi o mesmo que pegar uma caixa de quebra-cabeça de sete mil peças, esparramar no meu colo e dizer "monta". E, pra piorar, os encaixes das peças eram todos defeituosos de fábrica. Ou seja, assim como numa espécie de jogo diabólico em que você sabe que a pessoa nunca achará a solução, aquele desenho era tão inacessível que nenhum elemento naquela porcaria encaixava com o que eu entendia do mundo. Era coisa muito além da minha capacidade de ascepção.

Ontem fui ao cinema assistir a nova versão de Alice, reencarnada pelas lentes do Tim Burton. E o filme é muito bom. Gostei. Embora tenha achado um pouco esgotada a fórmula Johnny Depp/Tim Burton/Helena Carter, eu tenho que admitir que é um ótimo trabalho. Johnny Depp é o tipo de ator (genial) cujo pior trabalho possível nunca ficará abaixo do razoável. Como Robert Downey Jr., por exemplo.

"Tá, mas você estava descendo a lenha no livro, Ismael. Onde você quer chegar, afinal?".

Como diria Morpheus, "siga o coelho branco" - eu quero chegar ao buraco de Alice. Venha comigo, pois estou com pressa!

Vamos pensar no significado das coisas. O que podemos tirar do livro (ou do filme) como significado para nossas vidas? Ou seja, como podemos ler a obra e tirar algo de útil para meu caso particular? Ou ainda, como podemos descobrir a mensagem que a obra quer veicular?

Não foi por acaso que me saltou aos olhos a influência vitoriana na narrativa. A primeira vez que tive contato com o espírito vitoriano foi por intermédio da literatura gótica. Deixo claro que nunca li nenhuma, mas joguei um RPG cuja proposta de diversão era o goticismo e sua mensagem, além de ser fã desde sempre dos vampiros e de Anne Rice, meios esses todos que bebem fartamente naquele repositório temporal.

A era vitoriana passou por várias transformações e um dos pilares era a mudança "espiritual" (tomada aqui num sentido sociológico). Eu gosto de entender o século dezenove como o atravessar de uma porta: estamos dando um passo para o mundo moderno e todas as suas novidades fantásticas. É um universo alienígena e fascinante, em que as pessoas, deslumbradas, começam a especular a extensão desse fascinante futuro, muitas vezes por intermédio da arte que pinta e tece um destino prodigiosoe - às vezes ridiculamente exagerado, às vezes espantosamente clarividente - como os livros de ficção científica da época.

Mas ainda não atravessamos a porta. Temos um pé ainda no passado. Nos valores tradicionais. E as forças a eles ligadas nem sempre cedem suavemente. Por isso, talvez, não se espante do período negro na França da Revolução; como um parto doloroso rumo a um novo status-quo, paradigmas digladiaram pelo controle do futuro. Em outras paragens o processo foi menos desumano, embora não isentas dos desafios inerentes a uma transformação visceral.

Era a época, como diria Marx, em que o feudalismo morria. Era ali que Roma soltava seu derradeiro fôlego. O assassínio começara séculos antes e estava previsto. A força teleológica dos lúcidos burgueses, que ansiavam por um novo futuro, era uma roda d'água tocando o destino, cujo córrego irrompia num rio caudaloso.

Os valores aristocráticos tornavam-se anacrônicos - chegou um tempo em que a etiqueta tornou-se vazia demais, supérflua. As atitudes ocas eram exemplificadas nos formalismos: assim como no filme vemos essa crítica realçada por Burton, na época do livro em questão proliferavam obras, vitaminadas que estavam de subversão (sutil ou escancarada, mas sempre presente), que mostravam as contradições e os ditos retrocessos e alfinetavam o setor tradicional da sociedade. Em exemplos "escandalosos" temos a literatura pornográfica da época, muito vendida entre a nata, que, afinal, compunham a maior parte dos letrados. Entre novels e publicações semanais diversas figuravam os capítulos, compêndios e cadernos recheados de desventuras amorosas. Ao mesmo tempo em que mais se fez o cerco aos costumes impuros e a perdição carnal, praticou-se a secreta entrega ao banquete e fartura dos prazeres. Esse aspecto vitoriano é interpretado como o ápice da hipocrisia.

Portanto, quando vemos Alice entrando no buraco e descobrindo um outro mundo, depois emergindo e tendo segurança de que aqueles referidos formalismos ocos não são para ela, a segurança é consequência natural da jornada espiritual que praticou, jornada essa que a dirige, clara e resoluta, a um meio diferente do qual nasceu. Meio que só poderá ser uma nova época que já se implementa. Ela abraça o porvir e assume os negócios do pai, quebrando inúmeros valores, além de barreiras próprias.

Não fazia sentido para ela casar-se e ser uma mulher da maneira como era adequado (proper, expressão que, no original, carrega sentido ainda mais profundo). Não existe príncipe encantado como espera sua tia. A tia dela, aliás, tipifica primorosamente a esquizofrenia da qual sofriam todos naquele mundo idealizado. Alice precisou fazer uma jornada num universo interior, o País das Maravilhas, para descobrir em que lugar se definirá no mundo. Esse é o lugar onde ela enfrenta seus próprios demônios e valores, anseios e desafios, que, encarnados nos diversos personagens de sua psiquê, polarizam-se em duas forças antagônicas; assim como nela os dois lados travam uma batalha de épica proporção que definirá o novo mundo, os gigantes paradigmáticos digladiam no meio social lá fora. Indo além: não só Alice, mas cada indivíduo da época passa por essa contradição interior - se dá o passo para o outro lado da porta ou se fica. Nesse caso, já sabemos o roteiro. Muitos dos ficantes perderam a cabeça.

Bem, talvez por isso eu não tenha entendido nada aos seis anos. Tudo o que me importava era gostar ou não daquelas cores e personagens engraçados esquisitos. Mas é aí que vejo uma falha. Não que tenha sido proposital, mas perceba: tudo sobre o qual discursei até agora é a minha opinião sobre a obra. É como a interpreto, como acho que ela funciona pra mim, como a leio.

Não posso dizer se Charles Dodgson quis colocar uma mensagem elaboradíssima em sua obra. Mas é inegável a influência que ela sofreu de sua época. Dizer o contrário seria contra-senso. Mas o caso, afinal de contas, é que venho dizer que não funciona muito para crianças. Penso que é confuso demais, pois não veicula algo de forma inteligível. É como tentar conversar com elas numa língua estrangeira: não adianta ensinar ou repreender, elas não entenderão, nem um, nem outro.

Há muitos anos eu assisti Digimon, um outro desenho animado, num dos dias em que não tive aula de manhã na faculdade (ou talvez estivesse no ensino médio). Não era mais tão afeito a desenho mas admirei-o muito pela qualidade. Na minha opinião, desenhos devem ter um valor educativo para as crianças; e aquele acertava em cheio. O roteiro era centrado em temas importantes do público infanto-juvenil, de forma lúcida e competente. Lembro que o episódio que assisti discorria com profundidade didática e - mais importante - comovente, sobre o valor da amizade, seus desafios e riquezas, de modo que fiquei encantado. Gosto de observar esse tipo de coisa, pois me considero um escritor. Por isso tento desenvolver (por pura curiosidade e fascinação) um olhar clínico para a obra alheia.

Eu não sei. Em se tratando de crianças, eu prefiro Digimon a Alice no País das Maravilhas...

PS: tive arrepios do gato listrado por vários anos 

6 de fev. de 2010

"Cérebroooooooooooooo..."


Muita gente não sabe, mas o filme de zumbi tem uma profunda mensagem de crítica social.

wtf?

É, tem sim. "Jura?". Juro de pé junto. O cara que emplacou a ideia do zumbi que a gente ve hoje no cinema foi o Romero. George Romero. Aclamado pelos fãs do gênero e ignorado pelo público em geral, ele foi uma pessoa que deu um passo a frente e gritou "ta tudo errado". Com a sociedade, quero dizer...

Década de 50 nos EUA. Quando começou sua carreira nessa época, Romero sempre contratou atores negros, que via de regra eram discriminados na profissão, pra representarem papéis de destaque em seus filmes (coisa que pouca gente tinha coragem de fazer; e mesmo os simpatizantes da causa, que queriam dar coro a voz do movimento, acabavam desencorajados porque muitas vezes sofriam violência, eram assediados e pagavam um auto custo em suas vidas pessoais por tal ato).

Mas o principal não era isso. No auge da contra-cultura, pegando um pouco o embalo do movimento hippie, ele quis que as pessoas parassem um pouco pra pensar na sociedade (tirânica) que construiram.

Seus filmes são eivados de uma visão pessimista. Pro Romero, o homem da sociedade em que vivia era instintivo, tacanho e animalesco: é como se tivéssemos expressado em sociedade o lado destrutivo do que somos em natureza - o homem defensivo, preocupado com seu bem-estar de forma egoística, acabava criando um sistema de selvageria nas relações entre as pessoas.

De um lado, temos os zumbis: representando a mentalidade de rebanho que adotamos, absorvendo e reproduzindo valores de forma acrítica, ou simplesmente pelo conforto de nos sentirmos bem pertencendo ao grupo ou a um propósito. Assim como eles, somos uma massa de bonecos descerebrados, sem instinto individualista, andando em manada, obedientes a cultura vigente propagada pelos líderes e autoridades que elegemos, da mesma forma que uma boiada segue o líder da manada. E não só isso: assim como eles, nós queremos destruir quem não pertence ao nosso mundo! Queremos comer seus cérebros, destruindo seu poder de pensar, de questionar e quebrar com os nossos valores dogmáticos; destruir sua capacidade de construir uma sociedade plural, includente e respeitadora do diferente. Ao demonizarmos o outro grupo, que pensa diferente de nós, e os perseguirmos e exterminarmos, estamos escolhendo categoriza-los como não-humanos.

Para Romero, os que assim agem é que são os verdadeiros demônios. Por isso o cineasta inverte as roupagens, que antes eram de um jeito, e coloca neles a do inumano.

De outro lado, temos as cenas no filme em que os personagens estão acuados num espaço pequeno e tendo que conviver com outros indivíduos das mais diferentes origens. Esse é um aspecto marcante dos filmes do Romero, em contraposição ao de vários outros diretores: ele joga uma lente poderosa, que sonda essa dinâmica em grupo quando pessoas diferentes são colocadas em situações extremas, que exigem decisões que expressem seus valores mais íntimos (BBB me vem a cabeça... ratinhos num laboratório).

Aqui eu faço uma pausa pra dizer que eu não sei a opinião dele sobre qual a natureza do ser humano. Me parece - e na verdade é isso o que eu penso - que ele quer provar que o ser humano é complexo, as vezes ambivalente e até contraditório: que possui instintos que o colocam numa postura extremamente defensiva, isto é, de enxergar perigo potencial em tudo, principalmente no diferente e no desconhecido; mas que o ser humano possui outro lado, que o faz necessitar emocionalmente da vida em bando (em sociedade), ter a necessidade do calor dos outros indivíduos, da busca pela criação de um mundo social cheio de propósitos e de significâncias, e finalmente de ter a capacidade de se emocionar com algo que ele criou uma ligação. E que nós construimos uma sociedade fortemente baseada no primeiro conjunto de instintos, os destrutivos, mas não no segundo conjunto, e isso está fazendo com que nos violentemos.

É bom lembrar que, na época dele, as pessoas no mundo ocidental viviam com o medo da guerra nuclear, e em meio a isso havia a mútua demonização entre as duas polaridades que dominavam o mundo, de modo que se criou um estado de cataclisma iminente, pois "o outro lado quer nos destruir".

Tem algumas cenas memoráveis de seus filmes que remetem a esses questionamentos. No final do primeiro filme, quando a protagonista (uma mulher!) sobrevive, fica forte e se junta aos humanos que organizaram a resistência, ela os vê atirando em zumbis e os caçando por esporte, praticando tiro ao alvo, etc. Ela passa a perceber que os humanos não possuem nada de diferente da atitude dos zumbis, e se questiona se valeu a pena ter sobrevivido. É realmente um final distópico (que é um final pessimista, o contrário de utópico).

No filme mais recente, em que um grupo de universitários luta pra sobreviver, tem uma parte em que eles ouvem os gemidos característicos de um zumbi e se viram, pra ver um homem se aproximando com os braços abertos. Eles quase atiram no homem, mas descobrem que é um surdo-mudo, que não sabe vocalizar a conversa (e por isso acaba gemendo igual um dos mortos-vivos), além de ele ter uma aparência meio atípica - usa oculos fundo de garrafa e cabelos e roupas mal cuidados por ter estado no trabalho braçal da fazenda. Essa cena eu achei genial. Por ser um deficiente físico, eu sei como essas pessoas não são enxergadas na sociedade.

Qualquer semelhança com um mundo hobbesiano, realista, de causa-e-consequência e de amoralidade, não é mera coincidência, hehehe. Bem, vou parar por aqui, porque eu consigo ir muito longe nas análises, de tanto que já pensei sobre a coisa. Quem sabe em outros posts...


Prepare a pipoca, que aqui vai a lista de vários filmes de zumbi, que eu acho que vai agradar o iniciante no assunto. A não ser que vc seja um daqueles que fala "odeio filme de zumbi e todo mundo que gosta é chato e bobo e besta", vc vai ter diversão garantida. :b

Alguns são do Romero, só que refilmados pela garotada recente de hollywood:

- Night of the Living Dead: pra mim é o melhor de toda e qualquer lista; tem o clima que eu acho clássico pra um filme não só de zumbi, mas de terror
- Dawn of The Dead: estilo mais de ação, mas ainda profundo nas análises do ser humano vivendo em grupo; é herdeiro das antigas cenas do Romero, que enfatizava muito os diálogos longos e o horror expressado nos sobreviventes
- Day of the Dead: só de ter a Mena Suvari tirando o chapeu e a jaqueta militar já vale a pena ;)
- Land of the Dead: assim como o Dawn, é de ação mas um pouco reflexivo; destaque pro John Leguizamo, que manda pacarálio
- Diary of the Dead: dirigido pelo mestre Romero, é o que tem a cena do surdo-mudo
- 28 Days Later: alta adrenalina... esse é pros que adoram susto e tensão em altíssimass doses
- 28 Weeks Later: se voce viu o anterior, veja este tambem; a cena de abertura é pesadíssima, intensa e da o tom pessimista pro resto da hora e meia!
- Zombieland: este já brinca com o gênero e mistura zumbis com comédia; as piadas são as melhores que já vi no gênero
- Zombie Strippers: imagine a metáfora do zumbi usada pra criticar o machismo, e ainda por cima num tom de humor... não conseguiu fazer a ligação? Então assista a este filme, pois ele consegue, e bem (e veja os peitos da Jenna Jameson)

Aprendendo a questionar

Eu lembro uma vez que a família toda foi passar as férias na casa da minha vó. Eu tinha uns dez anos e a minha priminha estava na fase do "porque". Ela devia ter uns quatro anos.

Porque isso? Porque aquilo? Porque? Porque? Porque? Tudo o que eu falava, ela perguntava. Era tudo mesmo; porque a gente ia brincar de saltar os obstáculos, de olhar as formigas, porque o doce-de-leite vinha em caixinha, porque o carteiro entregava... E não adiantava, quanto mais eu respondia, mais ela perguntava. Aí a gente ia chegando ao âmago dos motivos, e tinha hora que eu sentia que não fazia mais sentido perguntar. Eu falava "ué, porque é assim".

Eu até achei bem legal, porque eu ficava sentindo como se estivesse ajudando a educá-la, me sentia algo responsável e mais maduro. Mas tambem deve ser um saco pros pais, hehehe.

Ha pouco tempo eu estava procurando nas livrarias virtuais uns livros sobre bolsa de valores pra estudar (mais sobre isso numa futura postagem...) e por puro acaso topei com um livro sobre outra coisa que adoro - a filosofia. Esse outro livro era daquele tipo "filosofia para iniciantes" (eu me considero iniciante, por isso gostei dele u.u').
E o tema que ele abordava é bem legal. Ele queria ensinar as pessoas que filosofia é, antes de mais nada, aprender a questionar.

Quando a gente nasce, muita coisa é passada pra gente, então acabamos sendo criados com muitas verdades "prontas". O engraçado é que a gente cresce e caminha a vida toda agindo, muitas vezes, sem voltar atrás e conferir se aquelas coisas são boas pra nós, se realmente batem com nossa experiência do mundo como um todo ou se são um testemunho muito limitado e particular. Isso pode cair no lado trágico, de toparmos com coisas novas, que quebram com as verdade que nos foram passadas - e ao invés de adotarmos outros paradigmas no lugar, a gente ignora a coisa nova ou, pior, destroi ela. Isso é a autêntica ignorância em forma de tirania.

Então, a meu ver o grande papel da filosofia é voltar atrás e parar pra perguntar: "porque?".

Eu acho que é por isso que o estereótipo que se pinta dos filósofos ou dos amantes da área é de malucos, gente excêntrica, fora do convencional. E é isso mesmo. Se a gente para pra questionar as coisas mais básicas, a gente pode acabar achando respostas bem diferentes, o que nos tornará seres realmente diferentes. Talvez isso nos torne apenas autênticos ou "estrangeiros". Mas se a coisa for muito adiante, podemos nos tornar párias, contraventores ou mesmo alienígenas.

Então a gente pode pensar nas perguntas básicas como "Deus existe?", "de onde viemos?", "pra onde vamos?", "existe um propósito para o universo?". Só que aí vem a parte mais maluca da coisa: a gente pode questionar coisas ainda mais básicas, como "o mundo existe?", ou "eu existo??".

Algumas perguntas podem parecer absurdas. Mas isso (provavelmente) é porque a gente julga a resposta tão óbvia e auto-explicativa, que não paramos pra perceber um fato atrelado a isso: que estamos na verdade respondendo a pergunta com algo que nos foi passado, sem termos genuinamente pensado se tal coisa é assim. Um exemplo: a bíblia diz a verdade? a ciência diz a verdade? pera... o que é "a verdade"? que diabos é isso, afinal?

Um outro exemplo, que acho bem poético: será que não somos pessoas dormindo num quarto escuro, com aparelhos no corpo todo, tendo experiências falsas colocadas na nossa mente? Será que não somos os personagens de um The Sims ultra-moderno e não sabemos?

Esse último exemplo pode lembrar o filme Matrix. E uma coisa engraçada é que isso foi proposto desde a antiguidade, por várias pessoas. A mais famosa é a de Descartes, que pensou se nós não seríamos pessoas sob o jugo de um gênio maligno, num estado de sono, com nossos sentidos sendo controlados de modo tão minucioso a estarmos presos num mundo virtual, mas que parece real de tão bem feito.

Quando se ensina a refletir e questionar as coisas, uma das expressões mais usadas pelos filósofos é a de "ter olhos de criança". É como se nós aprendêssemos a nos espantar com cada coisa do mundo - espanto aqui, da mesma forma que uma criança, quando olha as coisas pela primeira vez, sem preconceito, com admiração e curiosidade. Sem pré-conceito, sem ideias formadas. Olhar de forma virgem, nova, digamos assim.

Talvez por isso as crianças nos surpreendam com frequência: por usarem uma lógica prístina e honesta, e por isso inesperada e muitas vezes brilhante; e por vermos o quanto não sabemos sobre o mundo quando paramos pra pensar no assunto.