6 de fev. de 2010

"Cérebroooooooooooooo..."


Muita gente não sabe, mas o filme de zumbi tem uma profunda mensagem de crítica social.

wtf?

É, tem sim. "Jura?". Juro de pé junto. O cara que emplacou a ideia do zumbi que a gente ve hoje no cinema foi o Romero. George Romero. Aclamado pelos fãs do gênero e ignorado pelo público em geral, ele foi uma pessoa que deu um passo a frente e gritou "ta tudo errado". Com a sociedade, quero dizer...

Década de 50 nos EUA. Quando começou sua carreira nessa época, Romero sempre contratou atores negros, que via de regra eram discriminados na profissão, pra representarem papéis de destaque em seus filmes (coisa que pouca gente tinha coragem de fazer; e mesmo os simpatizantes da causa, que queriam dar coro a voz do movimento, acabavam desencorajados porque muitas vezes sofriam violência, eram assediados e pagavam um auto custo em suas vidas pessoais por tal ato).

Mas o principal não era isso. No auge da contra-cultura, pegando um pouco o embalo do movimento hippie, ele quis que as pessoas parassem um pouco pra pensar na sociedade (tirânica) que construiram.

Seus filmes são eivados de uma visão pessimista. Pro Romero, o homem da sociedade em que vivia era instintivo, tacanho e animalesco: é como se tivéssemos expressado em sociedade o lado destrutivo do que somos em natureza - o homem defensivo, preocupado com seu bem-estar de forma egoística, acabava criando um sistema de selvageria nas relações entre as pessoas.

De um lado, temos os zumbis: representando a mentalidade de rebanho que adotamos, absorvendo e reproduzindo valores de forma acrítica, ou simplesmente pelo conforto de nos sentirmos bem pertencendo ao grupo ou a um propósito. Assim como eles, somos uma massa de bonecos descerebrados, sem instinto individualista, andando em manada, obedientes a cultura vigente propagada pelos líderes e autoridades que elegemos, da mesma forma que uma boiada segue o líder da manada. E não só isso: assim como eles, nós queremos destruir quem não pertence ao nosso mundo! Queremos comer seus cérebros, destruindo seu poder de pensar, de questionar e quebrar com os nossos valores dogmáticos; destruir sua capacidade de construir uma sociedade plural, includente e respeitadora do diferente. Ao demonizarmos o outro grupo, que pensa diferente de nós, e os perseguirmos e exterminarmos, estamos escolhendo categoriza-los como não-humanos.

Para Romero, os que assim agem é que são os verdadeiros demônios. Por isso o cineasta inverte as roupagens, que antes eram de um jeito, e coloca neles a do inumano.

De outro lado, temos as cenas no filme em que os personagens estão acuados num espaço pequeno e tendo que conviver com outros indivíduos das mais diferentes origens. Esse é um aspecto marcante dos filmes do Romero, em contraposição ao de vários outros diretores: ele joga uma lente poderosa, que sonda essa dinâmica em grupo quando pessoas diferentes são colocadas em situações extremas, que exigem decisões que expressem seus valores mais íntimos (BBB me vem a cabeça... ratinhos num laboratório).

Aqui eu faço uma pausa pra dizer que eu não sei a opinião dele sobre qual a natureza do ser humano. Me parece - e na verdade é isso o que eu penso - que ele quer provar que o ser humano é complexo, as vezes ambivalente e até contraditório: que possui instintos que o colocam numa postura extremamente defensiva, isto é, de enxergar perigo potencial em tudo, principalmente no diferente e no desconhecido; mas que o ser humano possui outro lado, que o faz necessitar emocionalmente da vida em bando (em sociedade), ter a necessidade do calor dos outros indivíduos, da busca pela criação de um mundo social cheio de propósitos e de significâncias, e finalmente de ter a capacidade de se emocionar com algo que ele criou uma ligação. E que nós construimos uma sociedade fortemente baseada no primeiro conjunto de instintos, os destrutivos, mas não no segundo conjunto, e isso está fazendo com que nos violentemos.

É bom lembrar que, na época dele, as pessoas no mundo ocidental viviam com o medo da guerra nuclear, e em meio a isso havia a mútua demonização entre as duas polaridades que dominavam o mundo, de modo que se criou um estado de cataclisma iminente, pois "o outro lado quer nos destruir".

Tem algumas cenas memoráveis de seus filmes que remetem a esses questionamentos. No final do primeiro filme, quando a protagonista (uma mulher!) sobrevive, fica forte e se junta aos humanos que organizaram a resistência, ela os vê atirando em zumbis e os caçando por esporte, praticando tiro ao alvo, etc. Ela passa a perceber que os humanos não possuem nada de diferente da atitude dos zumbis, e se questiona se valeu a pena ter sobrevivido. É realmente um final distópico (que é um final pessimista, o contrário de utópico).

No filme mais recente, em que um grupo de universitários luta pra sobreviver, tem uma parte em que eles ouvem os gemidos característicos de um zumbi e se viram, pra ver um homem se aproximando com os braços abertos. Eles quase atiram no homem, mas descobrem que é um surdo-mudo, que não sabe vocalizar a conversa (e por isso acaba gemendo igual um dos mortos-vivos), além de ele ter uma aparência meio atípica - usa oculos fundo de garrafa e cabelos e roupas mal cuidados por ter estado no trabalho braçal da fazenda. Essa cena eu achei genial. Por ser um deficiente físico, eu sei como essas pessoas não são enxergadas na sociedade.

Qualquer semelhança com um mundo hobbesiano, realista, de causa-e-consequência e de amoralidade, não é mera coincidência, hehehe. Bem, vou parar por aqui, porque eu consigo ir muito longe nas análises, de tanto que já pensei sobre a coisa. Quem sabe em outros posts...


Prepare a pipoca, que aqui vai a lista de vários filmes de zumbi, que eu acho que vai agradar o iniciante no assunto. A não ser que vc seja um daqueles que fala "odeio filme de zumbi e todo mundo que gosta é chato e bobo e besta", vc vai ter diversão garantida. :b

Alguns são do Romero, só que refilmados pela garotada recente de hollywood:

- Night of the Living Dead: pra mim é o melhor de toda e qualquer lista; tem o clima que eu acho clássico pra um filme não só de zumbi, mas de terror
- Dawn of The Dead: estilo mais de ação, mas ainda profundo nas análises do ser humano vivendo em grupo; é herdeiro das antigas cenas do Romero, que enfatizava muito os diálogos longos e o horror expressado nos sobreviventes
- Day of the Dead: só de ter a Mena Suvari tirando o chapeu e a jaqueta militar já vale a pena ;)
- Land of the Dead: assim como o Dawn, é de ação mas um pouco reflexivo; destaque pro John Leguizamo, que manda pacarálio
- Diary of the Dead: dirigido pelo mestre Romero, é o que tem a cena do surdo-mudo
- 28 Days Later: alta adrenalina... esse é pros que adoram susto e tensão em altíssimass doses
- 28 Weeks Later: se voce viu o anterior, veja este tambem; a cena de abertura é pesadíssima, intensa e da o tom pessimista pro resto da hora e meia!
- Zombieland: este já brinca com o gênero e mistura zumbis com comédia; as piadas são as melhores que já vi no gênero
- Zombie Strippers: imagine a metáfora do zumbi usada pra criticar o machismo, e ainda por cima num tom de humor... não conseguiu fazer a ligação? Então assista a este filme, pois ele consegue, e bem (e veja os peitos da Jenna Jameson)

Aprendendo a questionar

Eu lembro uma vez que a família toda foi passar as férias na casa da minha vó. Eu tinha uns dez anos e a minha priminha estava na fase do "porque". Ela devia ter uns quatro anos.

Porque isso? Porque aquilo? Porque? Porque? Porque? Tudo o que eu falava, ela perguntava. Era tudo mesmo; porque a gente ia brincar de saltar os obstáculos, de olhar as formigas, porque o doce-de-leite vinha em caixinha, porque o carteiro entregava... E não adiantava, quanto mais eu respondia, mais ela perguntava. Aí a gente ia chegando ao âmago dos motivos, e tinha hora que eu sentia que não fazia mais sentido perguntar. Eu falava "ué, porque é assim".

Eu até achei bem legal, porque eu ficava sentindo como se estivesse ajudando a educá-la, me sentia algo responsável e mais maduro. Mas tambem deve ser um saco pros pais, hehehe.

Ha pouco tempo eu estava procurando nas livrarias virtuais uns livros sobre bolsa de valores pra estudar (mais sobre isso numa futura postagem...) e por puro acaso topei com um livro sobre outra coisa que adoro - a filosofia. Esse outro livro era daquele tipo "filosofia para iniciantes" (eu me considero iniciante, por isso gostei dele u.u').
E o tema que ele abordava é bem legal. Ele queria ensinar as pessoas que filosofia é, antes de mais nada, aprender a questionar.

Quando a gente nasce, muita coisa é passada pra gente, então acabamos sendo criados com muitas verdades "prontas". O engraçado é que a gente cresce e caminha a vida toda agindo, muitas vezes, sem voltar atrás e conferir se aquelas coisas são boas pra nós, se realmente batem com nossa experiência do mundo como um todo ou se são um testemunho muito limitado e particular. Isso pode cair no lado trágico, de toparmos com coisas novas, que quebram com as verdade que nos foram passadas - e ao invés de adotarmos outros paradigmas no lugar, a gente ignora a coisa nova ou, pior, destroi ela. Isso é a autêntica ignorância em forma de tirania.

Então, a meu ver o grande papel da filosofia é voltar atrás e parar pra perguntar: "porque?".

Eu acho que é por isso que o estereótipo que se pinta dos filósofos ou dos amantes da área é de malucos, gente excêntrica, fora do convencional. E é isso mesmo. Se a gente para pra questionar as coisas mais básicas, a gente pode acabar achando respostas bem diferentes, o que nos tornará seres realmente diferentes. Talvez isso nos torne apenas autênticos ou "estrangeiros". Mas se a coisa for muito adiante, podemos nos tornar párias, contraventores ou mesmo alienígenas.

Então a gente pode pensar nas perguntas básicas como "Deus existe?", "de onde viemos?", "pra onde vamos?", "existe um propósito para o universo?". Só que aí vem a parte mais maluca da coisa: a gente pode questionar coisas ainda mais básicas, como "o mundo existe?", ou "eu existo??".

Algumas perguntas podem parecer absurdas. Mas isso (provavelmente) é porque a gente julga a resposta tão óbvia e auto-explicativa, que não paramos pra perceber um fato atrelado a isso: que estamos na verdade respondendo a pergunta com algo que nos foi passado, sem termos genuinamente pensado se tal coisa é assim. Um exemplo: a bíblia diz a verdade? a ciência diz a verdade? pera... o que é "a verdade"? que diabos é isso, afinal?

Um outro exemplo, que acho bem poético: será que não somos pessoas dormindo num quarto escuro, com aparelhos no corpo todo, tendo experiências falsas colocadas na nossa mente? Será que não somos os personagens de um The Sims ultra-moderno e não sabemos?

Esse último exemplo pode lembrar o filme Matrix. E uma coisa engraçada é que isso foi proposto desde a antiguidade, por várias pessoas. A mais famosa é a de Descartes, que pensou se nós não seríamos pessoas sob o jugo de um gênio maligno, num estado de sono, com nossos sentidos sendo controlados de modo tão minucioso a estarmos presos num mundo virtual, mas que parece real de tão bem feito.

Quando se ensina a refletir e questionar as coisas, uma das expressões mais usadas pelos filósofos é a de "ter olhos de criança". É como se nós aprendêssemos a nos espantar com cada coisa do mundo - espanto aqui, da mesma forma que uma criança, quando olha as coisas pela primeira vez, sem preconceito, com admiração e curiosidade. Sem pré-conceito, sem ideias formadas. Olhar de forma virgem, nova, digamos assim.

Talvez por isso as crianças nos surpreendam com frequência: por usarem uma lógica prístina e honesta, e por isso inesperada e muitas vezes brilhante; e por vermos o quanto não sabemos sobre o mundo quando paramos pra pensar no assunto.

10 de set. de 2009

Assista a porra desse filme!


A Vampira e o Garoto

Obra-prima.

Eu simplesmente não tenho uma expressão melhor pra resumir este filme. Deixe Ela Entrar é uma história de vampiro contada da maneira mais... mais... eu queria dizer original, mas não é isso. Não é só uma maneira "diferente" de contar uma história de vampiro. Não é, tampouco, uma história única.

É mais que isso.

O filme e o livro usam a metáfora vampírica de forma maestral, em toda a sua plenitude. Eu sou apaixonado pelos sangue-sugas. Da pra falar sobre muita coisa que vivemos, muito da nossa sociedade, usando o vampirismo como um veiculo de análise. É isso que me fascina nesses seres. Eles somos nós em diferentes aspectos. Mas enfim, ao que interessa...

Uma mãe que não entende muito bem o filho, apesar de gostar dele plenamente, não percebe que o garoto sofre bullying na escola. Tem uma cena em que o garoto Oskar (que faz dupla romântica com a outra protagonista) chega chateado em casa por mais um dia que passou nas mãos dos valentões. Ele recebe a janta da mãe e ela pergunta que ferimento é aquele no rosto dele (um puta de um corte na bochecha branquinha, por conta de um golpe de vara), ao que ele inventa uma desculpa, daquela maneira meio encabulada e bem defensiva, e a sonsa da mãe nem se toca e acredita na desculpa ("você caiu numa pedra? que chato... tome mais cuidado da próxima vez, querido", responde ela com um sorriso afável e um chamego no garoto).

Digo, que merda de mundo é esse em que, de um lado, os pais estão tão estressados com a rotina de labor e, de outro, a escola, que deveria cumprir parte nesse papel de cuidado e educação, de orientar os pais, inclusive, e não possui instrumentação adequada pra lidar com um problema tão difundido e enraizado?

É nesse ponto que entra uma tacada genial do escritor. Ele se valeu de uma característica nacional - o fato de os suecos terem internalizado em todos os aspectos de suas vidas a adaptação as longas noirte e frio extremo por meio de uma vida excessivamente enclausurada - pra dizer que as pessoas também se enclausuraram em si mesmas. Todos os personagens secundários do filme reforçam esse aspecto. Cada um sofre isoladamente em seu próprio mundo e o diálogo é parco, o que transparece em amizades e relações amorosas desgastadas. O diretor conseguiu mostrar isso de forma belíssima, em tonalidades que variam sutilmente, de forma impressionante - os pais são divorciados; a genitora é dedicada, mas atarefada e meio perdida no papel de mãe; o pai, também afável, um tanto alheio ao mundo do garoto em alguns momentos; o professor de educação física é um cara supimpa e que gosta dos alunos (e não aquele estereótipo de treinador brutalizado americano), mas meio avoado; acontecem altos crimes na cidade, só que o clima é meio de letargia e certa obnubilação por parte das pessoas, de modo que parece fácil esconder os sinais e escapar impune. No meu entender, o caminho intencionado pelos autores foi criticar a sociedade ocidental... meio como faz o Saramago, em Ensaio Sobre a Cegueira - aquela coisa de sociedade capitalista pós-moderna, com uma pluralidade de valores tão grande, que muita gente acaba vítima desse caos e perde a capacidade de se situar como ser humano e ser social, acabando confusa e até mesmo adoentada. Bom, fui um pouco distante no exemplo, mas o livro pretende mostrar algo nesse sentido, pelo que sinto, e eu só sei que pelo olhar do diretor essa viagem crítica se torna um banquete de nuances e sensacões.

É realmente algo que foge do trivial.

E é muito massa que exista justamente um exemplo contrário a essa frieza e inumanidade. O calor, a descoberta do outro e a relação de amor verdadeiro é retratada no casalzinho fofuxo do Oskar e da vampira Eli. Palmas pros atores mirins, por terem demonstrado emoções de maneira profunda, mesmo tão novos. Eu li que a escolha do elenco demorou um ano pra ser finalizada. Olha, valeu a pena. Sob direção brilhante, esses dois puderam mostrar um talento extremamente bem conduzido e, não só isso, um perfil de apresentação que se encaixou como uma luva para o que os personagens demandavam - aquele jeito todo particular de mostrar um olhar profundo e humano nas cenas de close demorado, de quem está genuinamente acostumado a momentos solitários e que aprecia a companhia dos próprios pensamentos em horas de sadia reflexão (ou talvez de horas exageradas e nem tão sadias, vai saber...).

Esses dois personagens, que se sentem em conflito com o mundo, incompreendidos, e agora descobrindo uma relação salvadora para ambos, complementam-se nas nas fortitudes. Oskar ensina a vampira a existência da gentileza e da aceitação do diferente, enquanto ela, com sua sabedoria burilada na existência secular, ensina o garoto a não ser saco de pancada alheio. Essa simbiose, tecida de forma minuciosa pelo autor do livro, figura realmente como a trilha da superação e da felicidade.

No final do filme, a cena demonstra uma coisa muito singela, que representa a síntese da mensagem toda. Não vou falar pra não melar o impacto. Só estou levando uma gota de mel na sua língua pra aumentar a curiosidade. :)



PS: mais uma gotinha de mel: existem ainda dois sub-temas muito fortes e presentes que são trabalhados no filme, nos quais nem trisquei (um é identidade sexual, o outro moralidade de bem e mau). Isso é só pra dizer como essa obra-prima é inusitada ao trabalhar com uma carga tão complexa de mesclagem. Se gostar, leia o livro, que é mais complexo ainda. Não li, mas tenho certeza que vale a pena, senão pela habilidade literária, pela riqueza da mensagem.

11 de ago. de 2009

Porque minhas amigas acharam que eu era gay


 
"Homem tem que ser honrado. Homem tem que ter caráter".


Há algum tempo decidi comigo que não quero ser homem seguindo fórmulas ditadas pela sociedade. Não quero ter que provar que sou homem tendo alguma virtude específica. Pra mim não faz sentido associar masculinidade a um conceito fechado.

Essa escolha implica automaticamente que não existe uma definição encerrada sobre masculinidade, heterossexualidade... ou sobre qualquer orientação sexual. Tirando os próprios impulsos bioquímicos que movem as pessoas sexualmente, não haveria um padrão de comportamento a ser seguido pelo indivíduo para se encaixar socialmente em algum grupo.

Até mesmo o conceito científico de masculino e feminino é polêmico. Fatores mutagênicos e taxas hormonais no feto influenciam a formação do corpo e, mais importantemente, o cérebro e o comportamento. Existem centenas de condições que podem marcar um indivíduo, de modo que ele nem sempre se encaixa psicologica e socialmente em conceitos e funções sociais e na maioria das vezes nem se trata de caso patológico. Às vezes a pessoa é, simplesmente... diferente.

Se o lado biológico parece complexo, imagina o social. Eu me considero honrado. Até carater eu acho que tenho. E definitivamente não sou modesto. Acho que modéstia é, mais das vezes, uma auto-diminuição. Prefiro dizer claramente que gosto dos meus pontos fortes e que tento reconhecer minhas limitações.

O engraçado é que mesmo assim acabo não sendo homem da maneira que as pessoas esperam. Desde que fiz minha escolha, as mulheres vem me estranhando. As amigas ficaram se questionando genuinamente se sou hetero, homo ou bi. Acho isso legal, pois quero deixar as pessoas confusas. Isso faz com que elas revejam conceitos e larguem os rótulos.

Mas é chato constatar que isso tambem afasta boa parte das pretendentes na primeira impressão. E está me incomodando. A maioria das pessoas é muito machista. Eu acho a própria visão de que um homem deve ser honesto, honrado e de carater machista. Pô, mulher tambem tem que ser isso tudo. Eu admiro mulheres íntegras e fortes de caráter.

E pra mim tem se tornado desgastante ter que ficar dando demonstrações dessas virtudes pra provar, pra garota que eu quero conquistar, que eu sou homem e que preencho os pre-requisitos. Eu sei que preencho e ela deveria buscar coisas além disso. Ou melhor, não era isso que eu deveria fazer pra provar que sou homem.

Parece que não está bastando, pras minhas amigas ou pras pretendentes, eu ser fissurado em filmes de guerra, policiais, de ação, acompanhar a F1, os campeonatos de vale-tudo e rally internacional que rolam na tv, de ter gigabytes de mulher pelada no computador, ter algumas noções acadêmicas sobre guerra e gostar de armas antigas e modernas. Não sei se é porque eu não faço questão de ressaltar esses detalhes.

Acho que é porque não me limito a isso. Só porque fiz um pouco de teatro e tenho algum talento de observação e sei fazer mulheres e homossexuais caricatos. As vezes a brincadeira vai longe. Quando os amigos fazem piadinha de chamar de gay, eu avacalho - falo (sério) que o sfincter esta dolorido. E não só isso. Finjo perversão tambem (na verdade, o perversão deveria estar entre aspas, mas isso é assunto pra outra ocasião).

Mas isso eu faço é pra mexer com a cabeça dos enclausurados. O que eu sei, mesmo, é tambem ser sensivel. Quando sei dar dicas de moda, dar uma arrumada no cabelo das amigas e tirar fotos chiques, botando pra fora o lado sensual delas pra que se empoderem; quando falo igual uma matraca sobre como o casalzinho de atores foi ótimo no filme do crepúsculo; quando interpreto sem pudores uma personagem feminina no rpg; quando digo que acho normal ver dois caras se comendo num filme pornô; quando falo que o anus é uma área erógena; quando faço isso tudo, pras pessoas eu sou gay.

Às vezes me sinto numa trilha solitária. Na mesma medida em que essa sede de quebrar com o convencional me impele, sinto o isolamento que é preciso ser dado como tributo do caminho herético. E ultimamente o que mais me desgasta é a necessidade imposta de eu ser o homem convencional pra poder pegar mulher. As mulheres exigem isso.

A mulher média é machista. Acho que sou moderninho demais.

29 de jul. de 2009

Cristianismo, 11 de setembro e Sistema Financeiro

Zeitgeist, o Filme
Um documentário sobre três assuntos diferentes. Siga o link a seguir. O site é em português, mas o video não possui tradução. (http://www.portugalzone.com/?p=123)


Jesus
Será que você realmente sabe tudo sobre o cristianismo? Será que conhece as raizes de sua herança judaico-cristã?

O que Jesus, Horus e Mitra possuem em comum? "Pera", você diz. Eles possuem algo em comum? Sim, pequeno gafanhoto... Cristianismo primitivo, Judaismo, 25 de dezembro, Pascoa... as semelhanças e informações o deixarão estupefato. O quanto de Jesus foi construido e o quanto foi fato historico? Depois de ficar a par destas informações, você com certeza terá uma visão diferente sobre sua religião.

11 de setembro
Nunca levei a sério aqueles malucos da internet que dizem que o ataque as torres gêmeas foi uma conspiração. Isso pra mim tinha o mesmo valor que os coleguinhas que falam sobre greys, chips, draconianos e Eram os Deuses Astronautas. Só que depois de considerar as informações salientadas pelo documentário, comecei a pensar melhor no assunto... Não me convenci acerca de uma teoria da conspiração, mas definitivamente me fez repensar e ver que o problema não foi satisfatoriamente elucidado para o público.

Sistema Financeiro
Basicamente, eles dizem que um pequeno grupo de pessoas influentes quer dominar o mundo através do mercado financeiro, deixando todos chipados e endividados, a mercê de sua agenda. Não é nada diferente das teorias sobre Illuminati, Nova Ordem Mundial e Priorado de Sião. Ignore esta terceira parte (ou, como eu, divirta-se vendo como pessoas são capazes de tecer as mais criativas explicações sobre algo que lhes é complicado demais pra entender).

28 de jul. de 2009

Futebol dos filósofos

Postaram na comunidade Filosofia do orkut um vídeo hilário sobre os filósofos mais famosos da história jogando futebol. Quanto mais cabeção você for, mais vai rir com os trocadilhos. É pra desopilar o fígado!

Aliás, só os ingleses com sua ironia fina pra fazer um video desses. Dizem que inglês é feio pra caramba. Nunca tirei a prova. Mas uma coisa eu tenho certeza, o humor deles é o mais inteligente. :)



27 de jul. de 2009

"A guerra de todos contra todos"

"Imagine-se num outro mundo. Desde pequeno, você foi ensinado que deve se comportar. Que deve respeitar os outros, seguir as leis e buscar a bondade de alma. Se fizer algo de errado, seu coração ficará maculado. Quanto mais a maldade marcar suas ações, mais negro e pesado se tornará seu coração.

Então, quando você morrer, a deusa da justiça irá pesar seu coração na balança contra uma pena, a pena da lei espiritual. Se seu coração estiver marcado de maldade, ele descerá e a pena subirá. Vocé é mandado a destruição. Uma besta inominável devorará sua alma dolorosamente. Destruição.

Chocante? Sim, essa é a intenção. No egito antigo, assim como em todas as culturas, figuras que personificam a justiça foram criadas para estabelecer, na terra, um código moral e espiritual para impor ordem e convivência pacífica entre os indivíduos da sociedade. Dentre as ferramentas principais, o medo da punição ou, mais dramaticamente, o medo de um sofrimento abominável encontra lugar especial.

Num mundo onde as pessoas podem simplesmente tomar dos outros o que querem, os indivíduos vivem em constante guerra uns com os outros. Os astutos digladiam com os brutos. Morre o ingênuo e sobrevive o egoista, que reconhece a necessidade do ataque antecipado. A vida é acre e ingrata.

Eis que um grupo de pessoas se une. Elas nunca confiarão umas nas outras, pois sabem que no primeiro momento de invigilância serão traidas. Por isso propoem um pacto: todas abdicam, ao mesmo tempo, de suas forças, para criarem uma entidade vingadora que lutará com a capacidade de todos juntos. De Leviatã chamada será. Ela velará pela segurança do grupo, tornando-o superior aos outros selvagens por meio da multiplicaçãs de suas forças. Protege-los-a, tambem, deles proprios. Nenhum do grupo ousara nada contra o próximo por medo de retribuição da entidade.

Então, assim como a besta espiritual que devora as almas dos injustos, o Leviatã destruirá os ímpios quem caminha sobre a terra e todos que se oporem aos compactuados. Agora, com uma pequena medida de sossego conquistada, cada um poderá dedicar seus esforços para tornar a vida menos difícil. Quem sabe até mais colorida."


Em 1651 um filhote de cruz-credo chamado Thomas Hobbes contou essa historieta aos seus companheiros e pouco tempo depois foi consolidada uma entidade chamada Estado, formada pela união da força de todos os cidadãos e que os protegerá deles mesmos e de ameaças de outros paises.

No livro tinha um desenho de um rei, com a espada na mão direita simbolizando o direito de usar a força contra quem ousasse quebrar o contrato social, com o cetro na mão esquerda significando a legitimação do governo perante os acordados e o corpo formado pela combinação das capacidades individuais dos cidadãos (é um monte de hominho, igual um enxame formando um monstro em desenho animado u.u'). Não sei que artista o Hobbinho contratou pra ilustrar o seu livro, mas ele transmitiu bem a ideia do futebolista político.